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[ENSAIO] Hostis (2017): Sobre redenção e intencionalidades

Atualizado: 29 de out. de 2025


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Em 2017 saiu o filme Hostis (Hostiles), de modo bem discreto, com os talentosos Wes Studi (consagrado ator Cherokee, envolvido em diversos filmes com representação nativa) e Cristian Bale (nosso Batman do Nolan) de temática Western Revisionista envolvendo o relacionamento entre dois veteranos das Guerras Indígenas, um do lado dos Cheyenne e outro do lado do exército estadunidense. Não obstante dizer, possivelmente solte alguns spoilers leves aí embaixo. Siga por sua própria conta e risco.

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Esse texto não deve ser levado como um review do filme, ou uma crítica técnica, visto que não sou entendido do assunto. Em vez disso, vou entrar mais no mérito da intencionalidade do filme em relação a retratação do ponto de vista da branquitude no que tange a visão indígena norte-americana e na relação entre ambas.

Quem me conhece sabe que gosto muito da temática do período que conhecemos como Velho Oeste (faroeste) e venho mais como um assíduo leitor e admirador da época do que como um pesquisador acadêmico. Com isso, além de toda mitologia envolvida no período, gosto também de entender as motivações das ações dos diversos povos envolvidos nos conflitos que envolvem toda a época e as consequências que criou aquela nação e suas influências até os dias de hoje.


O filme se passa em 1892, fim do período que conhecemos como Velho Oeste. A fronteira está se fechando e os territórios estão se formando em estados oficiais. O oficial Joseph Blocker (Bale), capitão veterano das batalhas das Guerras Indígenas é obrigado a transportar seu arqui-inimigo, Chefe Águia Amarela (Studi), da tribo Cheyenne, e sua família do Novo México até Montana, cruzando o país de sul ao norte, para que o Chefe viva o resto dos seus dias em liberdade. A partir daí, a história é um amontoado de clichês do gênero “frienemy” (onde temos dois inimigos mortais no começo que acabam criando um laço até o final), tão utilizado desde “Inimigo Meu”, de 1985.

Não que desmereça a história, mas como disse antes, isso não é um review técnico sobre o filme. Tem vários sites aí pra isso, no caso.


Do filme, posso dar três certezas absolutas: Possui paisagens maravilhosas, passando por diversos biomas típicos de uma ambientação western. Não menos importante, Cristian Bale apresenta o bigode mais bem aparado que eu lembro de ter visto (sério, o bigode sozinho por mim ganharia um Oscar). E por fim, é um filme pra branco se sentir bem consigo mesmo.



Vou começar mordendo um pouco e apontar alguns erros crassos que ocorrem em gêneros de filmes envolvendo protagonismo branco dividido com qualquer outra etnia em temáticas westerns.

O filme já me perde um pouco no começo, retratando um ataque Comanche a uma fazenda de colonos. Apesar de, sim, os Comanches terem sua fama de saqueadores, ladrões de cavalos e gados, a intencionalidade do filme de retratar o típico “indígena selvagem e cruel” na primeira cena, permite que quando somos apresentados ao atormentado personagem de Christian Bale, logo na sequência do ataque, todo o seu ódio aos nativos sejam aparentemente justificados. Afinal, acabamos de ver uma família inteira ser massacrada, ele não pode estar errado, não é mesmo?

Mas isso serve apenas para firmar o que digerimos por décadas de propaganda, através de filmes, série e livros: que nativos norte-americanos são selvagens pagãos que matam colonos sem misericórdia.

Quando somos apresentados ao personagem de Wes Studi, no papel do Chefe Águia Amarela, apesar da atuação estupenda, muito do tratamento do que vemos entre os dois personagens parece totalmente justificado. A desconfiança, a hostilidade e a humilhação vem em forma de uma certa reparação pelo que aconteceu no passado (tanto do personagem quanto do público que acabou de ver uma cena de massacre).


E quando falo dessa intenção (não tão) velada, falo exatamente disso: o filme não começa com uma tribo indígena Dakota se defendendo do Massacre de Wounded Knee, onde o exército estadunidense assassinou idosos, mulheres e crianças.

Não somos apresentados com uma opção de simpatia pelo lado indígena para, justamente, sentirmos confortáveis com o ódio de Blocker. Além disso, o filme usa do mesmo artifício do argumento que a ideia da violência perpetuada pelo Capitão Blocker, massacrando tribos inteiras é equivalente a violência perpetuada pelo Chefe Águia Amarela, que matou vários soldados, inclusive amigos de Blocker. Um tipo de argumentação desequilibrada e, pessoalmente, uma estrutura de narrativa até mesmo desonesta.

Nativos participaram das Guerras Indígenas para proteger sua cultura e estilo de vida. O exército estava praticando genocídio por ganância, seja por ouro ou por terras, em nome do governo estadunidense.

Continuar a equiparar as duas violências só mostra o quanto a visão purista estadunidense do genocídio indígena ainda é ignorada em certas camadas.

Ainda nas críticas em relação a visão e tratamento indígena, uma coisa que me incomoda sempre é o fato de sempre existir a ideia do “índio bom x índio mau”. O indígena que merece um tratamento humano é aquele que se rendeu aos maneirismos civilizados do homem branco. Veste roupas de homem branco, cultiva sua própria terra e adere a religião monoteísta protestante. O Chefe Cheyenne e sua família já nos é apresentado com roupas civilizadas enquanto pinturas tribais são reservados aos nativos selvagens e inumanos que nos é mostrado no começo do filme.

Existiam nativos que praticavam atos hediondos assim como existiam brancos (muitos deles de terno e viviam em Washington) que praticavam atos vis. Continuar a relegar a imagem e estética típica da cultura indígena a esses indivíduos é diminuir muito a riqueza da cultura dos diversos povos da época. Em vez disso, temos a representação visual do estilo de vida indígena como algo selvagem e distante, enquanto um indígena em reservas seria o ideal para se conviver. Essa dualidade sempre esteve presente no imaginário e, apesar de ser a passos bem lentos, está começando a se quebrar, dando uma nova face a importância que a cultura indígena proporcionou a época.

Quando somos apresentados no filme como as reservas são verdadeiramente, sabemos através de uma ativista em um momento que nada daquilo é absorvido direito. Um momento sem importância fundamental, já que toda a visão do filme é a trajetória de salvação do Capitão Blocker.


Aí entramos na parte mais crítica do filme. Apesar de momentos bem intencionados, como a abordagem nociva quanto a participação do exército norte-americano nas Guerras Indígenas e sobre como todos possuem uma noção que as terras dos indígenas foram, sim, tomadas a força e que existe um plano de genocídio da cultura nativa, a história ainda é sobre o momento de redenção do homem branco.

Menos do que um pedido de desculpas, o filme possui aquele sentimento que queremos um conforto da parte indígena que no final, tá tudo bem. É um artifício típico da narrativa estadunidense com quase tudo relacionado as opressões que eles mesmos causam. Seja um soldado cumprindo ordens no Iraque contemporâneo ou um capitão seguindo ordens no western, a ideia de que a redenção vem através de uma figura mitológica é presente em quase toda narrativa.

Falando assim, parece bom, afinal, se o personagem chega a redenção no final, significa que ele aprendeu e melhorou! Mas lembro aqui da abordagem e intencionalidade, que são os pontos desse texto e, dentro desse parâmetro, o filme é vazio. O personagem do capitão se redimindo é só um plano de fundo bonito de uma narrativa que tem medo de escancarar uma real tragédia que aconteceu aos povos indígenas (e, sinceramente, qualquer outro povo que não seja o branco nesse período).

O capitão Blocker se redimiu e suas mãos estão lavadas após o fim do terceiro ato, quando ele finalmente é visto sem seu uniforme militar e indo encontrar um resquício de paz. Mas não esquecemos que o filme, em todo a sua extensão, sempre nivela a violência dos dois lados e, com isso, a redenção de Blocker se torna vazia e sem sentido.

No final, não existe uma ideia de reparação, de que algo da parte dele foi injustificado, focando apenas na ideia de que o passado é passado e que devemos seguir em frente.

Pergunto: como seguir em frente quando toda a violência que o filme se propõe a se equiparar afeta até os dias de hoje os povos nativos remanescentes? Como lavar as mãos e achar a paz quando ainda é propagado a injustiça ao seu redor? Na ambientação do filme, as Guerras Indígenas acabaram. As tribos restantes estão confinadas em reservas insustentáveis, morrendo seja de doença, fome ou desgosto. Mas, no fim, tá tudo bem, afinal, nosso protagonista encontrou sua redenção. O que aconteceu foi necessário, pois como o próprio tema do filme diz: “Não há paz sem sacrifícios”, mas o filme possui um medo inato das narrativas norte-americanas de mostrar qual lado se sacrificou mais.


O filme possui, sim, um tratamento melhor em relação a visão do colonialismo estadunidense que se deu na época do que outras mídias por abertamente tocar no assunto “genocídio” e “tomada de terras”, embora ainda seja bem tímido, mas ela existe. Acredito que é um caminho aberto a se seguir em mostrar uma real ferida do que foi realmente o período mitológico western e, principalmente, escancarar seus estigmas que perpetuam até o dia de hoje.


Enfim, esses são os pontos que são os mais críticos para apresentar. Mas não levem a mal, achei um filme bom, embora eu esteja consciente do fato que ele evita tocar em feridas que, pessoalmente, gostaria que várias narrativas daqui pra frente tocassem e assisti-lo com essa consciência é fundamental.

Wes Studi entrega um Chefe Cheyenne altivo e orgulhoso e Bale, como sempre, brilha nos seus papéis. O capitão Joe Blocker é alguém verossímil, sensível e com certa eloquência, lendo Julio Cesar em latim. Apesar da minha consciência de reconstrução histórica dessa época, o filme cumpre seu papel de entregar uma dinâmica entre os dois rivais, crescendo o respeito mútuo de ambos.

As paisagens bucólicas são o ponto alto do filme, retratando tanto a aridez dos desertos do sul, quanto as florestas densas do norte. Vale a pena ver o filme pelas tomadas maravilhosas e iluminação que propõe.

Outro destaque é pra Rosamund Pike, no papel da viúva Rosalee Quaid, que entrega uma atuação fenomenal, ora mostrando uma sensibilidade maternal, ora uma angústia profunda e ora uma força avassaladora. Apesar do tratamento (assim como de todos os personagens no filme) de suporte ao personagem de Bale, Rosamund entrega uma importância fundamental na visão da diferença entre os tratamentos dados aos nativos. Apesar da dor da perda, a personagem não entra no clichê de achar que todo indígena é um selvagem sanguinário em potencial e cria uma ligação entre os outros personagens nativos.


Apesar de tudo dito, é um filme bom. Merece ser visto e aproveitado, conscientes de que ainda possui suas falhas. Acredito que existe uma necessidade crescente nas mídias atualmente em mostrar outras narrativas sobre como foi o período do faroeste e espero muito que isso seja mais constante e honesto daqui pra frente.


Como disse, ainda está tímido, mas está acontecendo.


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NOTA DO LOBO: 3 Jack’s de 5

Hostis (2017)

2h14/ Western, Drama

Direção: Scott Cooper

Elenco: Cristian Bale, Wes Studi, Rosamund Pike, Ben Foster

Este texto foi publicado primeiramente em 07/11/2020, aqui


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