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Diário de Bordo #00: Iniciativa RPG

Betim/ MG ~Rio de Janeiro/ RJ

920km


Uma selfie minha, de capacete e roupa de couro em frente a uma placa de divisa de estados: Rio de Janeiro/ Minas Gerais
BR-040

Dia 04 de Junho de 2026 e minha viagem para o Rio de Janeiro começou antes mesmo de ligar a motoca.

Tinha chegado uns dias antes de SP para Betim (meu atual QG) e percebi um barulho metálico vindo da roda dianteira de Marruá. Aquele tipo de som que nenhum motoqueiro gosta de ouvir. Levei em um mecânico bem perto de casa e, inicialmente, apostamos nas pastilhas de freio, que já estavam bastante gastas. A troca foi feita, mas o ruído continuou lá, firme e constante.


A suspeita passou então para os rolamentos. Como comprei Marruá usado e já rodei mais de 8mil km com ele, não seria nenhuma surpresa descobrir que estavam no fim da vida útil. Dado o tempo curto que tinha para chegar ao RJ, a decisão foi simples: monitorar o problema durante a viagem e fazer a troca assim que voltasse para casa. Tanto que mesmo sem saber se são os rolamentos mesmo, já comprei para trocar e assim, poder monitorar a partir de agora que estou com a motoca direto.


Com tudo pronto, parti rumo ao Rio de Janeiro pela BR-040.

Era minha primeira vez visitando a cidade.

A manhã estava cinzenta quando saí de Betim. O céu carregado e o frio cortante transformavam as montanhas de Minas em sombras gigantescas escondidas atrás da neblina. As serras apareciam e desapareciam como fantasmas ao longo da estrada.

E eu, feito um idiota, tinha esquecido a blusa.

Passei um aperto considerável tentando fingir que o vento gelado não estava atravessando cada camada de roupa que eu vestia. Ainda assim, era impossível reclamar. A paisagem compensava qualquer desconforto.

A BR-040 é uma estrada bonita demais para ser apenas um caminho entre dois pontos.

Apesar das curvas e serras, em alguns momentos parei apenas para observar o horizonte, esticar as pernas e apreciar aquela mistura de montanhas, nuvens baixas e asfalto desaparecendo na distância.

Enquanto isso, Marruá seguia firme.


Uma foto com o guidão da moto de frente a uma estrada. Ao fundo podemos ver serras verdes. O céu está azul e ensolarado.
BR-040 (Juiz de Fora/ MG)

O motor em V mostrou mais uma vez por que gosto tanto dele. Na faixa dos 90 a 100 km/h, girando perto das 7mil rotações, o motor trabalha com tranquilidade quase como se nem tivesse ligado. Sem esforço, sem drama, apenas fazendo aquilo para o qual foi construído: engolir quilômetros.

Ao final da viagem, foram cerca de 920km percorridos consumindo apenas três tanques cheios de quinze litros cada. Uma média próxima dos 21km/l, um resultado bastante honesto para um motor desse porte e da forma como costumo rodar em estrada.


O barulho na roda continuou presente durante todo o trajeto. Mais forte, mais constante, mas sem causar qualquer problema imediato. Fiquei monitorando se influenciaria minha pilotagem, mas acabou que apenas o barulho incomodava, enquanto todo o funcionamento da motoca estava normal.

No Rio de Janeiro, Marruá finalmente pôde descansar.


Foram três dias de evento, expondo meus trabalhos, reencontrando amigos, conhecendo gente nova, fazendo contatos para projetos futuros e aproveitando o que a Iniciativa RPG tinha para oferecer. Entre conversas, mesas e planos para os próximos meses, a motoca ficou estacionada, recuperando-se da viagem e se preparando para a próxima.

Quando chegou a hora de voltar para casa, bastou amarrar a bagagem novamente e apontar a roda dianteira para Minas.


Uma foto de uma mesa de bar, com uma cerveja servida em um copo e o colete do PROJETO TEMPESTAS encostado em uma cadeira
Tijuca/ RJ

A volta foi diferente.


O frio deu lugar a um clima mais agradável. Um sol tímido apareceu pela manhã e, ao longo do dia, foi ganhando força até transformar completamente a viagem. Com o tempo aberto, pude aproveitar muito mais a paisagem. E existe uma cena que continua gravada na memória.

A descida da Serra de Petrópolis.

Mesmo para quem já viu fotografias, nada prepara para a sensação de estar ali sobre duas rodas, observando as montanhas se abrirem diante dos olhos enquanto a estrada serpenteia rumo ao horizonte. É o tipo de vista que faz a gente diminuir a velocidade não por necessidade, mas para aproveitar mais alguns segundos daquele momento.


Nem tudo, porém, voltou perfeito para casa.

Além dos rolamentos, identifiquei também um pequeno vazamento de óleo na tampa lateral esquerda do motor. Como naquela região ficam o magneto e o estator, minha suspeita é que o retentor estivesse danificado. Pesquisando mais a fundo, descobri que o motor da Mirage 250 possui óleo nessa parte, para lubrificar essa parte do motor, então acredito que teria algum tipo de O-Ring para trocar em vez de um retentor completo. Somando isso ao retentor do pinhão, que já tinha visto anteriormente que estava vazando, a lista de manutenção acabou crescendo um pouco.

Nada inesperado. Quem viaja de moto velha aprende cedo que manutenção não é apenas um problema, mas parte da viagem.


Agora é hora de colocar Marruá no cavalete, trocar os rolamentos das duas rodas, resolver os vazamentos e revisar tudo com calma.

Porque o Rio de Janeiro ficou para trás.

Mas no fim do mês tem São Paulo.


E estrada, como sempre, chama estrada.


A foto de Marruá, uma moto custom preta com guidão seca suvaco de frente a um posto Petrobrás
Marruá no seu habitat natural (BR-040-Conselheiro Lafaiete/ MG)

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